:::Cinema Falado:::

Cinema é cachoeira, é luz, é som, é silêncio, é escuridão! Cinema é falado, é calado, é sem palavras! Cinema é razão, é complicação, é insano, total absurdo! Cinema é amor, é solidão, é saudade, é paixão! Cinema é sangue, é areia, corre nas veias, à flor da pele! Cinema para viver, para morrer em paz!

Monday, November 21, 2005

Deixo a janela aberta ...

Os anjos da América podem entrar com suas verdades avassaladoras, dúvidas sutis, mentiras cheias de boa vontade! Eu deixo sempre uma janela aberta para o caso de. "Angels in America" na pré-segunda e mais um pouco agora. Pós. Por que? Não sei exatamente. Matar saudades, sentir saudades, mais saudades. Tive uma segunda boa! Detalhes: só para quem viveu parte dela comigo. Um café da manhã bom, diferente, na mesa! Leite xandó, hehe! Dormi muito.
Voltando à série de Mike Nichols... Seres humanos expostos em suas verdades insuportáveis e mentiras necessárias e impostas. Radiografia de relacionamentos profundamente superficiais e delicadamente eternos. Religião, família, doenças, Reagan, aids - Deus abandonou a Terra? Fantasia, realidade, delírio, vícios.
Estou revendo o segundo capítulo e não quero escrever mais nada.

Saturday, November 19, 2005

Por que é tão difícil amar?

Nada melhor que um filme sobre as dificuldades e maravilhas do amor para me fazer voltar a escrever sobre cinema. Este filme é "Não amarás" (1988), sexto capítulo do Decálogo do metre polonês Krzystof Kieslówski.

Um garoto de 19 anos, funcionário da agência de correio do bairro, espiona e/ou admira uma vizinha do outro prédio com uma luneta. Ela é uma mulher madura, bonita e tem uma vida pessoal conturbada, pelo que vemos através do garoto. Ele cria situações para que a mulher vá ao correio e assim ele possa vê-la. Um dia isso é desmascarado e assim ele acaba confessando... seu amor?

A mulher, primeiramente assustada, começa a se divertir com o sentimento do garoto. Não sei se ela não acredita no amor de um garoto ou se não acredita mais no amor mesmo. Ela brinca com o jogo de se exibir para aquele jovem do outro lado da rua e é seduzida pela idéia de iniciar alguém puro e jovem no amor.

A melhor cena entre os dois é quando ele afirma amá-la e ela em troca pergunta o que ele quer: beijá-la, fazer amor, viajar? E o garoto responde que não deseja nada. O amor basta, sem nada em troca! O espanto e o a surpresa da mulher são fantásticos. E aqui lembro de Chico Buarque: "...chegou, como quem chega do nada / Ele não me trouxe nada / Também nada perguntou / Mal sei como ele se chama...".

O cinema de Kieslówski é mágico e trágico - consegue capturar o homem em seus momentos de dor, dos mais expressos aos mais contidos e quase invisíveis. Tudo em seu cinema tange o ser, mas não o determina. Quero dizer que a música é pontual, mas não determina o sentimento da cena. Assim é a luz, marcada por pontos escuros, mas nada de clima expressionista. Existe a luz, a sombra, mas também um meio termo, um ponto incerto, de passagem.

É incrível como neste filme o sentimento amor vai se tornando um personagem ausente, mas forte. A ausência do garoto transforma ou re-sensibiliza aquela mulher que pensava que o amor é beijar, fazer sexo, viajar. E é só ao final do filme, quando ela olha para o seu apartamento pelo olhar/luneta do garoto, que ela se vê. Um filme maravilhoso sobre o amor, a ingenuidade, a solidão e o respeito pelo outro.

Também vi "Roma, cidade aberta" pela primeira vez hoje, mas o dia é do Kieslówski (1941-1996). Viva o cinema! Viva o amor!